A missão de um Bispo em seu pastoreio, por Dom Airton

12/04/2012
Barbara

O que é ser padre?

A missão de um Bispo em seu pastoreio

Missão que começa muitos anos antes, com o chamado vocacional

A Arquidiocese de Campinas ainda se recuperava do falecimento de seu Arcebispo, Dom Bruno Gamberini, no segundo semestre de 2011. Dom Bruno havia partido de forma inesperada e deixava órfãos os municípios de Campinas, Valinhos, Vinhedo, Indaiatuba, Elias Fausto, Monte Mor, Hortolândia, Paulínia e Sumaré. Ao mesmo tempo em que as comunidades se despediam e lembravam com carinho do pastor que os havia acompanhado por sete anos, havia um clima de esperança e ânimo pelo novo Arcebispo que os viria encontrar. Esta espera terminou no dia 15 de fevereiro, quando o Papa Bento XVI nomeou Dom Airton para Arcebispo Metropolitano.
Vindo da Diocese de Mogi das Cruzes, Dom Airton mostra ser um homem simples, que aprecia estar com as pessoas. Gosta de ler e de escrever, sempre que o tempo permite, e cultiva especial devoção a Nossa Senhora, a São José e ao Santo Padre. “Desde o princípio de minha vida sacerdotal, Nossa Senhora esteve presente. Fui ordenado padre no dia 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, que é Padroeira também aqui da Arquidiocese”, comentou.

Ao fim de 2001, a Nunciatura Apostólica entrou em contato com Padre Airton, ordenado sacerdote em Santo André 16 anos antes. Ele seguiu para Brasília, para ouvir o que o Núncio à época, Dom Alfio Rapisarda, precisava lhe dizer: “O Santo Padre quer que o senhor continue em Santo André”. Ao que Airton respondeu: “Mas eu vou ficar em Santo André, não estou me mudando de Santo André, ninguém me convidou para sair, então estou lá”. “Mas como bispo”, foram as palavras do Núncio Apostólico. Assim, ele tornou-se bispo auxiliar de Dom Décio Pereira.

“Na medida em que eu me coloco nessa dimensão de fazer a vontade de Deus ou de, ao menos, buscar compreender Sua vontade para realizá-la, sinto-me realizado como pessoa humana, porque estou em conexão direta com a minha origem, que é Deus. Se Ele me chama para um serviço na Igreja, para responder a um desafio, eu tenho de estar sempre disponível. Essa disponibilidade, essa abertura para aquilo que Deus me propõe é que me faz dar passos”, aponta.

A consagração episcopal veio no dia 2 de marco de 2002. Em 04 de agosto de 2004, dia de São João Maria Vianney e Dia do Padre, foi nomeado para bispo de Mogi das Cruzes.  Bento XVI, em discurso a bispos recém-nomeados, em 2010, já afirmava: “A Igreja é ‘noiva de Cristo’ e o Bispo é o ‘guardião’ desse mistério”. O Santo Padre enfatizava, assim, em sua mensagem, que ao bispo confia-se a aliança entre a Igreja e Cristo.

A partir da ordenação, o bispo recebe a missão de santificar, ensinar e governar sua Arquidiocese. Último e supremo grau do Sacramento da Ordem, o bispo é a autoridade máxima da Igreja particular local, em jurisdição e magistério, mas “não é um mero governante, ou um burocrata, ou um simples moderador e organizador da vida diocesana. São a paternidade e a fraternidade em Cristo que dão ao Superior a capacidade de criar um clima de confiança, acolhida, afeto, mas também de franqueza e justiça”, disse Bento XVI.

Em entrevista ao jornalista Wilson Cassanti, Dom Airton falou sobre os valores que o nutriram e o acompanham por toda a vida. Ele nos revelou, com emoção, sua caminhada vocacional.

O senhor falou que é o primeiro de sete filhos. Gostaria que o senhor nos dissesse um pouquinho da sua infância, dos seus pais, onde o senhor nasceu.

Dom Airton: Nasci em uma cidadezinha que se chama Bom Repouso, uma cidadezinha pequena, muito agradável, apesar de que eu tenha saído desse local em 1964. Eu tinha oito anos naquela época. O sétimo irmão já nasceu em São Paulo, somos do ABC paulista. Passei dos oito anos de idade até os 21 anos, mais ou menos, vivendo ali no ABC como criança ainda, adolescente, jovem e, depois trabalhando ali no ABC. Entrei no seminário em 1979 e lá fiquei até 1985, quando fui ordenado padre. Permaneci na própria diocese trabalhando até o ano de 1998, quando fui enviado a Roma, para os estudos. Eu tenho saudades da minha infância, adolescência e juventude, porque era um tempo bom em que a gente se encontrava com a família; um tempo em que nós estávamos perto dos pais – pai, mãe e irmãos. Depois, cada um foi tomando o seu rumo, fazendo a sua história, mas isso fica na lembrança. E, até hoje, quando nós nos encontramos, os irmãos, a gente acaba se recordando daquela época. Nós não temos tanto tempo para estar juntos, sempre juntos, mas as lembranças dos tempos que estávamos juntos, elas são muitos vivas.

Sabemos que os pais do senhor são falecidos. O senhor pode nos falar um pouco sobre eles?

Dom Airton: Meus pais eram muito simples e pessoas muito devotas, tanto é que eu e meus irmãos todos nos chamamos José. As mulheres todas se chamam Maria. Meus pais eram de uma devoção muito simples a Nossa Senhora, amparada, talvez, pela pregação dos padres redentoristas, já que, no Sul de Minas, existe uma influência muito grande da presença destes religiosos e, àquela época, que eu me recordo ainda dos primeiros anos da infância, está a lembrança muito forte do padre Vitor, que influenciou muito a história da minha cidade, não só da minha família. Nós ouvíamos o rádio, as pregações. Esse ambiente de religiosidade e devoção foi um ambiente muito rico e meus pais sempre transmitiram isso, com muita simplicidade, mas também com muita vivacidade. Meus pais eram pessoas muito atentas às coisas todas da vida e às coisas da família, e viram o tempo em que viveram, se esforçaram e trabalharam incansavelmente para que nós pudéssemos ter trabalho, ter estudo, ter simplicidade de vida, a certeza e a esperança que eles tinham. Deles, ficou a certeza de que a vida não é tão ruim apesar dos sofrimentos, apesar das dificuldades, e a esperança de que, no futuro, nós podemos construir um mundo melhor. Essa era uma certeza que animava meus pais.

Como surgiu sua vocação sacerdotal e qual foi a reação de seus pais quando o senhor chegou a casa e falou “Eu vou ser padre”?

Dom Airton: Quando criança ainda, depois de adulto, minha mãe já dizia que já sabiam que eu talvez fosse ser padre. Mas nunca houve nenhuma conversa específica sobre isso. Nunca meus pais falaram, especificamente, de vocação, mas a vida que eles testemunharam me falava da vocação, da entrega a Deus, da busca pela vontade de Deus. Com 16 anos, falei para os meus pais que eu pensava em ser padre, e procurei, naquela época, o padre da minha paróquia em Santo André. Minha família não teve nenhuma reação “estranha”, porque seria normal, em minha casa, que alguém quisesse ser padre. Não era nada estranho… a nossa vida de católicos permitia esse tipo de opção. Mas, naquela ocasião, não entrei no seminário, porque precisava terminar os estudos. Fiz aquilo que era necessário, fiz o ensino médio, o colegial e, depois, então, falei para meus pais: “Olha, ano que vem entro no seminário!”. Meu pai disse: “Então vamos conversar!”. Aí foi a primeira conversa – vamos dizer assim – boa e forte que ele teve comigo com relação aquilo que eu estava propondo para minha vida. A primeira coisa que ele me perguntou: “Você sabe bem o que você está escolhendo? O que significa ser padre?”. E ele me explicou o que significava ser padre. Ele nunca estudou, meu pai sabia assinar o nome – ele dizia até que sabia “desenhar” o nome. Ele não teve a oportunidade de frequentar uma escola, mas me ensinou o que significa ser padre. E, naquele dia em que nós conversamos, em que ele me disse o que significava ser padre, de fato eu pensei (e pensei uma semana a mais) antes de falar com o promotor vocacional. “Será que depois dessa conversa é isso mesmo que eu quero?”. Foi a primeira conversa e nunca mais meu pai falou a respeito de eu ser padre. Foi uma conversa “curta e grossa”, com todo conteúdo que era necessário, mas também com toda objetividade que era necessária.

Uma curiosidade que surge agora: o que significa ser padre?

Dom Airton: O que meu pai me disse naquela época: é não ser dono de si mesmo. O padre não pode ter uma vida muito sua, porque terá de estar à disposição das pessoas, terá de ouvir muita coisa, enfrentar muitas dificuldades, superar conflitos. O padre tem de ser uma pessoa alegre para todos, uma pessoa disponível para todos, uma pessoa que saiba acolher a todos. Não pode ser uma pessoa bruta, rígida. Ele ainda me disse: “olha, além de tudo tem que ser uma pessoa muito, muito séria”; sério, para o meu pai, significava uma pessoa que não brincava em serviço, uma pessoa que não faz média com as coisas e que não tenta tirar vantagens pessoais. É isso o que eu levo para vida. É claro que, com o tempo, a gente vai descobrindo novas facetas daquele mesmo discurso que ele me fez, mas aquela referência, que é a primeira, permanece como uma rocha.

Quais são suas expectativas, agora, para Campinas?

Dom Airton: A minha expectativa é de que eu possa estar no meio do povo de Deus; acho que não existe alegria maior do que essa. Como lembravam os Salmistas, como é bom encontrarmos o povo que confia em Deus, estar na casa de Deus, como é bom estarmos juntos para celebrar Sua grandeza e Sua glória.

Entrevista concedida ao jornalista Wilson Cassanti, Setor Imprensa da Arquidiocese de Campinas em 16 de março de 2012 no Palácio Lumen Christi.

Acompanhe o Especial da Posse no site www.arquidiocesecampinas.com/arcebispo