A Matriz Nova

“O majestoso templo que se ergue na Praça José Bonifácio atrai as visitas de todos os amantes de coisas de arte, que vêm à nossa cidade, quer a passeio, quer a negócios. E todos são unânimes em tecer os maiores elogios às soberbas obras de entalhe que constituem um lavor artístico de elevado valor. É um patrimônio inestimável, que deve merecer o máximo zelo de todos os campineiros. É incontestavelmente um monumento suntuoso pelos verdadeiros primores de arte que encerra em seus trabalhos de entalhe, em madeira. Além desta circunstância que a torna importante atrativo local, representa um legítimo atestado dos sentimentos religiosos dos antigos campineiros”.

Com esse parágrafo inicia Leopoldo Amaral sua crônica sobre a nossa Catedral, publicada originalmente em “O Estado de São Paulo” e incluída em seu livro Campinas: recordações (1927).

Projeto da fachada da Matriz Nova

Data de 1807 o primeiro movimento para a construção desse templo, cujas proporções eram realmente colossais para a localidade que era Campinas naquela época. É que os moradores de então – diz ainda o ilustre jornalista campineiro – homens do largo descortino previam o futuro desenvolvimento do seu torrão natal.

Sua construção não foi tranquila e demorou mais de setenta anos, pois, com efeito, só foi inaugurada em 1883. Muitas referências se encontram em viajantes do século XIX que passaram por Campinas e referiam-se ao “suntuoso templo” em construção. Um deles, o oficial de Engenharia Alfredo d’Escragnolle Taunay (o futuro Visconde de Taunay), passando por Campinas em 1865 de passagem para o sul de Mato Grosso, onde se deflagrava a Guerra do Paraguai, teve sua atenção despertada, antes de tudo, pela enorme igreja em construção, e que, no seu dizer, “tem proporções majestosas, e no interior apresenta um trabalho perfeitíssimo de obra de talha, prometendo vir a ser, quando concluída, um dos mais esplêndidos templos do império”.

Mas, não deixa de fazer algumas críticas, como engenheiro que também era: “O vício, contudo, no risco primitivo, e a pouca solidez das paredes de taipa, apesar da enorme espessura, embaraçam a terminação e decoração da fachada, razão pela qual hoje se procura aproveitar o que existe feito, adaptando um plano de reforma parcial”.

E adiante: “O perigo no trabalho de taipa já se patenteou: parte da parede da frente desabou, matando alguns operários. Para conclusão da fachada adotou-se um plano misto, com uma só torre; entretanto, as obras pararam completamente depois do desastre”.

Sempre nos pareceu muito significativo o interesse demonstrado por Taunay pela nossa futura catedral. Além dos dois tópicos acima transcritos e que constam de seu livro Marcha das Forças (edição Melhoramentos, São Paulo, 1928), ocupou-se dela o futuro Visconde em diversas cartas que, estando em Campinas, escreveu a seu pai, no Rio de Janeiro. Aliás, diga-se de passagem, essas cartas, em número de 22, constituem excelente retrato do que era Campinas em 1865. Tivemos oportunidade de publicá-las todas no nº 150 de nossa “Notícia Bibliográfica e Histórica”, correspondente ao segundo trimestre de 1993. Uma dessas cartas, a de 18 de abril de 1865, em vez de seguir pelo correio comum, foi enviada em mãos por intermédio de Antônio Carlos Sampaio Peixoto, o “ativo administrador das obras da magnífica catedral (sic) que em Campinas se constrói”; e nela informa, entre outras coisas, ter participado de uma reunião de engenheiros na qual se discutiu o problema das torres, se seria apenas uma ou duas. E acrescenta que “o Sr. Sampaio, no Rio de Janeiro, procurará você para lhe falar desse caso”. E mais: “Temos aqui em Campinas muita falta de bons operários, pedreiros e carpinteiros”. E recomendava a Sampaio que procurasse no Rio um certo Job Justino da Silva, “arquiteto de valor” e muito afeiçoado à família Taunay.

Menos de um mês depois, Taunay deixou Campinas no rumo do sul de Mato Grosso, local onde sua expedição sofreu os horrores da famosa Retirada de Laguna, que forneceu assunto ao seu livro mais conhecido. No regresso para o Rio, não passou por Campinas e nunca mais esteve em nossa cidade. E, assim, nada mais sabemos de seu interesse pelas obras da Igreja em construção. E nem mesmo encontramos qualquer referência a essa viagem de Sampaio Peixoto ao Rio e nem se ele chegou a encontrar-se com as pessoas recomendadas por Taunay.

E as obras continuaram com várias interrupções ainda por quase vinte anos após a passagem de Taunay, pois só em 1883 pôde ela ser inaugurada; mencionemos que nos últimos anos foram as obras dirigidas por Ramos de Azevedo, que veio a ser um dos maiores arquitetos do Brasil.

Todos os que têm escrito sobre a Catedral, brasileiros ou estrangeiros, referem-se com especial agrado às obras de entalhe em madeira, o que constitui, realmente, obra de excepcional valor artístico. Realizou-as um entalhador baiano, Vitoriano do Anjos, trazido a Campinas por Antônio Francisco Guimarães, curiosa figura de cidadão português radicado em nossa cidade desde 1819. Recebeu o apelido de “Bahia”, por ter vivido muito tempo naquela província, onde conheceu o entalhador responsável pelo grande monumento artístico que ornamenta nossa Catedral.

Permitimo-nos tomar emprestado ao historiador Celso Maria de Mello Pupo seu depoimento sobre a obra do artista baiano que veio para a nossa cidade em 1853: “talhou o grandioso altar-mor que se compõe de um semicírculo de colunas, circundando, pelos lados e pelo fundo, uma sequência de plataformas circulares, em pirâmide que se ergue no centro, sustentadas umas sobre as outras por frontais lindamente entalhados, aproximando-se, no alto, de duas coroas sobrepostas às colunas circundantes, como um baldaquino, tudo entalhado. As colunas são toras de cedro campineiro que ‘o homem colheu na mata, brutas e informes, transmudadas em graciosos suportes, delicados e esbeltos, elegantes no encanto de curvas e rebaixos perfeitos, interrompidos por grinaldas e diademas’; ‘a cornija esculpida sustenta braços recurvados que alçam as coroas engrinaldadas de rosas folhagens’. Fez Vitoriano dos Anjos as rendas das grades das tribunas, do coro e dos púlpitos, estes últimos como dois ostensórios de filigrana e suportes magníficos” (Campinas, seu berço e juventude, 203).

Iniciados os trabalhos por Vitoriano dos Anjos em 1853, trabalhou ele até 1861, sendo sua obra continuada por Bernardino de Sena Reis e Almeida, do Rio de Janeiro, que, de 1862 a 1865, completou a obra maravilhosa de entalhe nu, obra rara em nosso país – depõe ainda Mello Pupo – que conta com a quase totalidade dos entalhes, recobertos de pintura e ouro.

Construção da Matriz Nova

Digno de menção parece-nos também o depoimento do viajante português Augusto Emílio Zaluar, que em 1861 visitou nossa cidade: “Tenho visto poucos trabalhos tão peregrinos executados em madeira. É um poema de flores, arrendados, colunatas, arabescos, grinaldas, florões, enlaçados com profusão e simetria, beleza e unidade, traduzindo as ideias de uma alma de poeta sob as formas mais puras, graciosas e sublimes que se podem reproduzir pelo cinzel do escultor! O cedro passou do templo da criação ao templo da arte, cantando um salmo não interrompido de louvor a Deus, primeiro como expressão da natureza, e depois como um hino da humanidade!” (Peregrinação pela Província de São Paulo, 153).

E referindo-se à situação em que ele encontrou Vitoriano dos Anjos na Campinas que ele visitou, escreve estas linhas de tristeza: “Este notável artista, já ancião e coberto de cãs, vive na mais ignorada obscuridade. Os seus trabalhos não são talvez apreciados nem remunerados como devem, o que explica a expressão de profunda tristeza e desgosto que se descobre na fisionomia do infatigável entalhador baiano. Surpreende ver o trabalho concluído por este homem em pouco mais de seis anos” (p. 153).

Inaugurada, como informamos, a 08 de dezembro de 1883 a “matriz nova”, eis como a “Gazeta de Campinas” noticiou o importante evento: “O aspecto que apresentava o largo da referida matriz e suas imediações denunciava os tons da mais viva alegria, por isso que achavam-se esses lugares ornamentados com palmeiras e folhagens, bandeiras, flâmulas, arcos de flores e outros iluminados a gás. Nos quatro cantos viam-se elegantes coretos destinados às bandas de música – Sociedade ‘Luís de Camões’ e a dos Srs. Azarias e Luís de Tullio. Na impossibilidade de descrever todo o ocorrido minuciosamente, vamos dar somente o que pudermos apanhar relativamente aos dias da festa. No dia 6 efetuou-se a benção do majestoso templo pelo Exmo. Sr. Dom Lino, bispo desta diocese em presença de avultado número de sacerdotes e muito povo, sendo à noite transladadas em procissão as imagens do Rosário, templo este que desde 1870 estava servindo de matriz. No dia 7 foi a igreja sagrada com a maior solenidade, havendo missa pontificial pelo Sr. Dom Lino Deodato. Antes de começar o serviço foi executada uma esplêndida ária, composição do maestro Sant’Ana Gomes, cantando com extrema expressão o solo a Exma. Sra. Dom Adelaide Lopes de Souza Gonçalves, acompanhada por viola de amor e orquestra. A interpretação da música, tanto por parte desta Exma. Sra, como da orquestra grandemente aumentada, foi a melhor possível. Após isto realizaram-se as matinas solenes, achando-se o templo brilhantemente iluminado e repleto de povo. No dia 8, antes da missa, foi executada a grande oratória, música do maestro Elias Lobo e letra do dr. Antônio da Costa Carvalho, produzindo essa composição o mais agradável efeito, pois tomaram parte além da Exma. Sra. Dom Adelaide Lopes, a Exma. Sra. Dom Cândida de Queiroz Teles, e muitas outras senhoras e vários cavalheiros, divididos em grupos, o que fez com que se destacassem magnificamente os solos cantados pelas mencionadas senhoras. Terminada a oratória, deu-se princípio à missa com o Kyrie expressamente escrito e enviado de Milão para esta solenidade pelo nosso estimável compatriota José Lino de Almeida Fleming, composição essa que agradou sobremaneira, e para cuja execução foram empregados os mais dedicados esforços pelo Sr. Sant’Ana Gomes, que recebeu na véspera, podendo assim apresentar um trabalho de nosso patrício. O Kyrie recomenda bastante as aptidões do Sr. Fleming para esse gênero de composição. A missa oitava do maestro Elias Lobo, já por vezes executada nesta cidade foi a escolhida para esse dia, completando assim com muito realce a parte da festa. O solo ao pregador, sendo este o Sr. Abade de São Bento, cantou-a a Exma. Sra. Dom Esméria Lobo, cuja voz de um timbre muitíssimo agradável é sempre apreciada. Não podendo realizar à tarde a procissão por causa do mau tempo, houve Te Deum e sermão pregado pelo sr. cônego Ezequias Fontoura, sendo cantada uma ‘preghiera’ pelas alunas do Colégio Florence com acompanhamento de órgão pelo sr. Giorgetti, e encarregando-se da parte principal a Exma. Sra. Dom Maria Monteiro, a qual, possuindo magnífica voz de contralto, conseguiu facilmente despertar a atenção de todos, pois que patenteou-se uma cantora apreciabilíssima” (Apud Mendes, José de Castro – Efemérides campineiras, p. 69-71. Campinas, 1963).

Vista da Matriz Nova, futura Catedral Metropolitana

Parece-nos significativo registrar que a primeira cerimônia realizada na “Matriz Nova”, logo no dia seguinte à sua inauguração, foi a sagração episcopal do padre Joaquim José Vieira, designado para a diocese do Ceará. Trata-se de uma das figuras mais marcantes da crônica campineira, embora, como lembrou pertinentemente Mário Pires, “não sendo filho de nossa cidade, o padre Vieira foi um dos seus mais notáveis e queridos vultos” (Pires, Mário – Campinas, sementeira de ideais, p. 173). Era natural de Itapetininga, onde nascera a 17 de janeiro de 1836, mas iniciou sua vida religiosa em Campinas, e, terminada função episcopal no Ceará, retornou à nossa cidade, aqui falecendo aos 08 de junho de 1917.

O “Padre Vieira”, como continuou sempre sendo chamado, apesar da titulação episcopal, tem, a seu crédito, uma das maiores obras já realizadas em Campinas, qual seja a “Santa Casa de Misericórdia”, inaugurada em 1876. No pátio desta instituição, bem defronte a capela (Nossa Senhora da Boa Morte) erigiu-se significativo busto em sua memória e a extensa rua que dá acesso ao hospital (vinda desde o alto do Bosque dos Jequitibás) recebeu o seu nome. Não Dom Joaquim José Vieira, que seria então realmente o seu título, mas simplesmente “Rua Padre Vieira”, que é como ele sempre gostou de ser chamado.

O evento que acabamos de registrar – a Inauguração de nossa futura Catedral – coincide com o início de uma série de transformações por que passou a urbe campineira, como que preparando-a para o advento de um novo século. A enorme riqueza auferida com o açúcar e principalmente com o café proporcionou não apenas uma série de melhoramentos materiais que beneficiaram a cidade, mas igualmente uma preocupação de ordem cultural, artística, social e religiosa. É significativo – já o lembramos – que uma cidade ainda tão pequena, que mal passava de seis mil habitantes em meados do século, tenha tido condições para a edificação de uma igreja tão grandiosa – um dos mais belos templos do Brasil – famosa pelas suas obras de arte.

Texto do Prof. Dr. Odilon Nogueira de Mattos
Publicado no livro Arquidiocese de Campinas: Subsídios para a sua História