José, homem justo

Por Barbara Beraquet | publicado em | Acesse nossos artigos

Por Pe. José Arlindo de Nadai

Vem de longe a tradição de a Igreja celebrar, em sua liturgia, a festa ou solenidade de São José, desde os séculos VIII e IX. Mas foi o Papa Sisto IV (+- 1484) que fixou o dia 19 de março para a comemoração de São José em toda a Igreja. Interessante que esta data resistiu a todas as reformas do calendário litúrgico e permaneceu até hoje, ganhando, aliás, sempre maior destaque.

Assim, o Papa Pio IX proclamou S. José padroeiro da Igreja universal, “por ser esposo de Maria e pai legal de Jesus, chefe e defensor da Sagrada Família”…

O Papa Pio XII, em 1955, o declarou padroeiro e modelo do trabalhador, instituindo a festa de São José Operário, a ser celebrada no dia do Trabalho, 1º. de maio, reconhecendo a dignidade do trabalho humano, como colaboração na obra do Criador.

Em sua carta – Laudato Sí – o Papa Francisco refere-se a São José “que nos pode ensinar a cuidar e trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou” (n.242)

O mesmo Papa Francisco incluiu a invocação a S. José em outras Orações Eucarísticas, além da já tradicional e mais antiga. Tudo isso faz jus à máxima “Lex orandilexcredendi” – acredita-se naquilo que se reza.

José é um nome recorrente na Sagrada Escritura, desde José, filho de Jacó, vendido por seus irmãos invejosos a comerciantes egípcios, mas que se tornará, depois, defensor e protetor de seu povo junto ao Faraó, de cujo reino será poderoso administrador, até José de Arimatéia a quem coube providenciar o sepulcro onde repousou o corpo do Crucificado, selando sua entrada com uma grande pedra, garantindo assim a segurança dos restos mortais de Jesus.

Entre esses dois personagens bíblicos de grande destaque – José do Egito e José de Arimatéia – surge a figura humilde, discreta e silenciosa de José, esposo de Maria e pai legal de Jesus a quem coube dar-lhe o nome, garantindo-lhe a descendência da casa de Davi, seu pai, pois assim profetizaram os profetas desde sempre, sobre a origem e descendência do Messias.

O Evangelista Mateus em sua narrativa da anunciação do anjo que se manifestou em sonho a José dizendo: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (1.20) acrescenta que “José era justo” e assim “agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher” (1,24).

Sem dizer palavra alguma, José responde com seu Sim, como servo fiel e obediente aos desígnios de Deus.

José era justo, segundo a justiça do Reino de Deus, que ultrapassa a justiça da Lei e, é muito maior que a justiça dos escribas e fariseus, pois, segundo esta, Maria poderia não só ser repudiada mas até apedrejada. José era justo conforme a justiça da nova aliança, inaugurada por seu Filho adotivo.

Com efeito, eu vos asseguro que se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20).

Assim veneramos São José e o contemplamos como servo justo, bom e fiel na realização da sublime missão que Deus lhe confiou…

Humilde e ousado assume Maria, já grávida, como esposa e a recebe em sua casa! Põe-se em viagem até Belém e, solícito, procura abrigo e, atento, vigia a segurança da gruta. Entre surpresa e admiração recebe a visita dos pastores e medita em seu coração o que diziam sobre o Menino…

Oito dias depois do nascimento de Jesus, preside o rito que decide e marca sua pertença ao Povo eleito. Juntamente com Maria, a mãe e ele como pai, apresentam e manifestam seu Filho aos Magos que de muito longe cruzam caminhos e vencem obstáculos para uma visita de adoração ao Rei dos judeus. Oferecem-lhe seus presentes e voltam para sua terra por outro caminho, evitando Herodes. Às pressas, clandestinamente, providencia a fuga para o Egito, livrando o Menino da matança dos inocentes. Podemos imaginar a tensão, o medo, as privações de José e sua família. Finalmente “eis que o Anjo do Senhor se manifestou em sonho a José, no Egito e lhe disse: Levanta-te, toma o Menino e sua mãe e vai para a terra de Israel… e foi morar numa cidadezinha chamada Nazaré da Galileia” (Mt 3,19-20). E, por conta desse fato Ele será chamado Jesus de Nazaré.

Depois, José reaparece no Evangelho de Lucas, ansiosamente procurando o Menino, que ao final da festa permanece no templo, em roda de conversa com os doutores da Lei, que, extasiados, ouviam-no e o interrogavam. Sua mãe não se conteve e lhe disse: “Meu filho, porque agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos”.

Descem de volta de Jerusalém, a grande cidade do templo e dos palácios para a humilde aldeia de Nazaré, onde o Menino “crescia em sabedoria, em estatura e graça diante de Deus e dos homens”, ao lado de José e Maria, que o protegiam e dele cuidavam com muito amor e carinho.

Depois dessas narrativas evangélicas que envolvem a figura de José como pai da Sagrada Família, ele mergulha no grande e misterioso silêncio do mistério da vida oculta de Jesus e dele mesmo.

Poderíamos, então, dar asas à nossa imaginação, como fazem os Escritos Apócrifos sobre a convivência de José no dia a dia com Jesus em sua casa, na oficina de carpinteiro, em seu descanso, passeios, lazer, conversas íntimas de pai para filho e divergências sobre alguma teimosia de Jesus adolescente.  Certamente, José terá iniciado o Menino Jesus na tradição religiosa, na oração e no culto da Sinagoga e festas do Templo, conforme costume e prática judaica. Nada do que é verdadeiro e autenticamente humano era estranho na vida de José com seu filho Jesus, e Maria, esposa e Mãe.

(originalmente publicado no jornal Correio Popular de 19/03/2019)


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