A morte na atualidade

Por Antonio Alves | publicado em | Acesse nossos artigos

Por Pe. Victor Silva Almeida Filho

No próximo dia 02 de Novembro se celebra o Dia de Finados. Se, por um lado, há uma cultura utilitarista que não trata do assunto, pois a sociedade de consumo busca a todo custo ocultá-lo, afinal de contas, para a sociedade de mercado consumo quase sempre está associado à felicidade; por outro lado, a morte está muito próxima de nós. É tratada nos telejornais, estampada nas primeiras capas dos periódicos, abordada nos círculos de conversas. É pauta do dia-a-dia. Ou seja, a morte faz parte da nossa cotidianidade. Porém, tanto aqueles que desenvolvem o tema de modo corriqueiro como os que fogem da temática, tratam do assunto sem envolver os valores cristãos que nele deveriam estar entranhados.
A morte é mais bem aceita quando acontece por figuras públicas: artistas de renome, políticos, religiosos de destaque como um Papa. Quando acontece nos padrões normais do dito “povão” ela não ocupa as rodas de conversa. Uma mostra clara disso é a tentativa de dar uma aparência menos fria e mais amistosa ao maquiar cadáveres para serem expostos nos velórios. Na sociedade que promove o Carpe Diem a todo custo, essa atitude é prova flagrante de que se torna imprescindível maquiar não apenas os cadáveres, mas o assunto em si.
Ao desenvolver o assunto de modo natural e humano, as famílias e a sociedade lidariam melhor com o tema de modo a ser visto como componente do existir e da finitude, deixando, assim, de ser visto como uma espécie de derrota dos seres humanos.
As relações no Brasil da atualidade trazem as marcas da intolerância, do ódio e da rejeição ao diferente. Tudo o que diverge e foge aos padrões deve ser eliminado ou aniquilado. Enquanto Richarlyson, ex-jogador do São Paulo, sofre ataques homofóbicos devido a sua opção afetiva, o ex-goleiro Bruno, é ovacionado por torcedores com a possibilidade da sua volta aos gramados. A morte também acontece nas manifestações de ódio e ofensa: “Toda pessoa que odeia seu irmão é homicida, e sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo” (cf. 1Jo 3,15).
Programas que veiculam falas fascistas todas as tardes nos meios de comunicação social, são promotores da violência, do ódio e consequentemente da morte. Ao promover falas de violência esses programas geram uma cultura de animosidade, nos quais a morte se torna banal, em especial, àqueles mais próximos às zonas de violência: favelas, periferias e morros, locais onde são mais comuns o tráfico de drogas e a violência.
Por parte da Igreja, há necessidade de acompanhar e respeitar as pessoas que estão a passar pelo luto. Falas como: “Não chores!” Não auxiliam aqueles que estão atravessando esse processo de superação do luto. Mais que reprimir é preciso acompanhar quem está vivenciando esse momento. Mais que compreendido, o luto deve ser vivido em todas as suas etapas. Ignorar as fases da dor, não é a melhor forma de encaminhar uma situação que permanecerá no subconsciente de quem perdeu alguém.
Nesse sentido, a Pastoral das Exéquias da Igreja ou outros organismos como a Escuta Cristã ou os acompanhamentos psicológicos oferecidos voluntariamente por algumas igrejas, devem estar estruturados com material humano adequado para prestar essa assessoria às pessoas e famílias que vivenciam a perda. Ao não se restringir à liturgia exequial nos velórios e ir ao encontro dessas situações, é atendido o pedido feito pelo próprio Santo Padre que quer uma Igreja “em saída,” que vai às periferias humanas e existenciais. Esse é um dentre os vários encaminhamentos a serem feitos pelas igrejas.
O morrer é a suprema ação do ser humano. Com uma sociedade marcada pelos valores do hedonismo, egoísmo, narcisismo e composta de uma cultura mercadológica a qual oculta, silencia e ignora a morte, cabe aos serviços sociais nos organismos públicos, privados, eclesiásticos e do 3º setor preparar um acompanhamento de modo que a morte seja um acontecimento assumido conscientemente e vivido numa escala comunicativa seja pelo enfermo seja pela família. Ao fazermos uma opção antropológica elegemos colocar no centro de nossa observação o humano com todas as suas idiossincrasias, pois ele ainda é realidade consistente, núcleo frontal de toda a sociedade. Realidade acima da invenção ideológica ou mercadológica.


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