Texto bíblico e suas intenções

Por Barbara Beraquet | publicado em | Acesse nossos artigos

Por Pe. Victor Silva Almeida Filho

A leitura de um texto é ato comunicativo. Significa interagir com o mundo do autor e o autor com o ambiente de seu leitor. O texto revela e transforma o mundo do leitor que colhe da trama textual informações que podem modificar a existência. A Bíblia enquanto texto não fica fora de tal situação. Seus autores querendo convencer seus leitores de algo constroem suas narrativas tendo uma intenção. Há uma estratégia de persuasão. E uma estratégia bem definida. Chamamos esse tipo de leitura de: Leitura Pragmática da Bíblia. Tem por finalidade saber qual, ou quais interesses tinha o autor sagrado quando compôs certa narrativa, quais são os por quês de se redigir certo texto bíblico.

É isso mesmo. Todavia, não é qualquer tipo de pergunta que fazemos aos textos bíblicos. Por exemplo, nunca se deve fazer a pergunta: “Foi exatamente assim que as coisas aconteceram na chamada Bodas de Caná em que Jesus transforma água em vinho?” ou “Foi do modo narrado que aconteceram as Pragas no Egito?” ainda “A caminhada de Jesus sobre o mar aconteceu dessa forma?” também “a Criação de Adão e Eva ocorreram da maneira como está narrada?” Repito: tais questões não devem ser feitas.

Auxiliados pela Leitura Pragmática, a verdadeira pergunta a ser feita ao texto bíblico é: “Por que você (escritor bíblico) me conta isso, desse modo?” “Por que me conta estes fatos e não outros?” “Por que você (autor sagrado) dá importância a certos acontecimentos e deixa de lado outros eventos de maior grandeza?” E talvez, a pergunta com maior carga de importância: “Que interesses você tem em me mostrar essas ‘estórias’ dessa forma?” Que atitudes quer que eu assuma me narrando tais fatos dessa forma?”

Um texto interessante para esse tipo de leitura é o de Lucas 7,11-17, a chamada Ressurreição do filho da viúva de Naim. Jesus está chegando a uma cidade chamada Naim e ao seu encontro vem um cortejo fúnebre. Ao ver o sofrimento de uma mulher viúva que chora ao enterrar seu filho único, Jesus sente compaixão, toca o esquife e ordena ao morto que se levante. O morto se levanta e começa a falar.

Entre as muitas perguntas feitas acima, outras poderiam ser elaboradas: Por que o relato se dá às portas de uma cidade? Que cidade era Naim? Que intenções o hagiógrafo queria provocar em seus leitores escrevendo uma reanimação de um Jovem? O que significa alguém sentir compaixão por uma viúva? O que significa chamar alguém de “Senhor”? O que constitui levantar alguém dos mortos? O que denota dizer que um grande profeta nos veio visitar? Por meio deste relato, que reações e atitudes Lucas quer provocar em seus leitores?

Para este autor Naim representa a sociedade israelita incapaz de dar vida. A viúva é personificação do Israel infiel que ficou sem Deus, o Esposo. O filho único, fruto de uma relação de amor que, infelizmente, agora ficou mutilada, era a esperança de Israel. A cidade é como um seio materno cheio de morte. O cortejo se confunde e se identifica com a viúva: sem vitalidade, o que resta são os ritos próprios de uma religião de mortos. No oposto, ainda fora da cidade, encontra-se Jesus; aproxima-se da cidade, como outrora Deus se aproximou do povo de Israel humilhado e oprimido, “fazendo-se próximo” de um povo sem esperança num estado precário de situação.

Dessa forma, a Leitura ou Pragmática tem o intuito olhar o texto a partir da provocação, aqui entendida como: ‘provoca-ação’. A narrativa da ressurreição do filho da viúva de Naim, exclusiva do Evangelho lucano, conduz seus leitores à fé num Deus que visita seu povo movido de misericórdia. Realiza assim o dito por Zacarias (Lc 1,78ss): “A bondade misericordiosa do nosso Deus, que vem visitar-nos como um sol resplandecente, para iluminar a todos os que jazem entre as trevas, sentados na sombra da morte”.

 


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