Criação da diocese

A ideia da criação da Diocese de Campinas surgiu em fins do século XIX. Com o crescimento da cidade e o desenvolvimento das próprias atividades eclesiásticas através não apenas de igrejas, mas também de instituições de várias naturezas, educacionais, principalmente, figuras expressivas da cidade, como Francisco Glicério, César Bierrenbach, Orozimbo Maia, Júlio Frank de Arruda, Antônio Carlos do Amaral Lapa, João de Assis Lopes Martins, Roque de Marco, Antônio Benedito de Castro Mendes, fora elementos da própria igreja, movimentaram-se no sentido de tornar realidade a proposta inicial, a qual a Santa Sé não considerou oportuna, entre outras coisas por ser Campinas cidade muito próxima a São Paulo.

A todos excedeu nesses esforços Dom João Batista Correia Nery, inclusive com um desprendimento digno mesmo de uma grande alma. Em carta que dirigiu ao ministro do Brasil junto à Santa Sé, escreveu textualmente: “Como recompensa apenas pediria ao Santo Padre um favor: não ser Bispo de Campinas em hipótese alguma. Não desejo que paire sequer a suspeita de que trabalhei por Campinas buscando colocação para mim. Deus sabe a pureza da intenção com que me esforcei por essa criação, mas, os homens talvez não vejam essa pureza”. Mas, estaria o nobre sacerdote predestinado a ser o primeiro antes da nova Diocese!

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Província Eclesiástica de São Paulo, criada em 07 de Junho de 1908

As dificuldades aplainaram-se posteriormente quando se pensou na organização de uma nova Província Eclesiástica em São Paulo, ideia já esboçada muito antes por Dom Joaquim Arcoverde quando Bispo da capital paulista e pelo seu sucessor, Dom José de Camargo Barros. Escrevendo de Roma a Dom Nery, a 28 de novembro de 1898, dizia Dom Joaquim Arcoverde: “Começou a ter execução o grande plano da criação das Dioceses de São Paulo, esboçado por mim e Dom José de Camargo Barros, e realizado por Dom Duarte: mas é força confessar que Campinas foi a causa impulsora desse desdobramento maravilhoso de dioceses que vão trazer benefícios incalculáveis a esse povo tão bom e tão digno desses benefícios”.

A ideia, acariciada por todos, tornou-se realidade aos 07 de junho de 1908, pela Bula “Diocesium nimiam amplitudinem”, de S.S. o Papa Pio X, pela qual criava a nova Província Eclesiástica de São Paulo, tendo como Dioceses sufragâneas a Diocese de Curitiba e as cinco novas Dioceses paulistas de Taubaté, Campinas , Botucatu, São Carlos e Ribeirão Preto.

O nosso Cônego Nery, que havia sido elevado ao episcopado em 1896, cabendo-lhe instalar a diocese de Vitória, no Espírito Santo e transferido em 1901 para a de Pouso Alegre, no Sul de Minas, veio a tornar-se o primeiro Bispo da Diocese Campineira voltando, pois, à sua terra natal, onde viveu até o seu falecimento, a 1º de fevereiro de 1920. Com sua investidura à frente da Nova diocese, talvez seja Dom Nery o único na história do episcopado brasileiro, a instalar três dioceses.

Lembremos que, antes de sua ascensão ao episcopado, o então Cônego Nery realizara importante obra religiosa, filantrópica e educacional em Campinas, tendo a seu crédito importantes empreendimentos. Um dos mais significativos, o Liceu de Artes e Ofícios, veio a se transformar no Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, um dos mais renomados educandários não só da cidade, mas do próprio país. E ressalte-se seu lado humanitário quando a cidade foi assolada pela epidemia de febre amarela no último decênio do século XIX.

A criação da Diocese de Campinas, em 1908, simboliza a consolidação e o aprofundamento de uma linha de atuação religiosa e política da Igreja. A separação entre a Igreja e o Estado, a partir da Proclamação da República – o fim, portanto do oficialismo católico e do monopólio religioso da Igreja – exige uma reestruturação radical da instituição. Há uma sistematização do processo de reformas que já vinham caminhando no período anterior e a definição de atuação mais incisiva voltada para a manutenção de principal religião da sociedade brasileira. Os movimentos que traduzem a nova postura podem ser definidos em quatro aspectos inter-relacionados: centralização e controle efetivo da instituição sobre as diversas dimensões do campo religioso, onde se destaca o papel fundamental desempenhado por vários de seus membros; expansão das paróquias coladas à dinâmica de expansão da cidade e a criação de mecanismos de intervenção na sociedade civil no campo da educação, assistência social e imprensa. A composição e formação dos quadros humanos para concretizar essas iniciativas aparecem na proliferação das ordens religiosas e das congregações masculinas e femininas em Campinas, em um número significativo.

O ano de 1908 é uma data importante para a população católica de nossa cidade: a criação do Bispado de Campinas, ocorrida a 07 de junho de 1908 por Breve do S.S Papa Pio X e instalado a 1º de novembro desse mesmo ano com a posse do primeiro Bispo, Dom João Batista Corrêa Nery. A nova diocese era o resultado da “execução do Decreto Consistorial de 7 de junho de 1908 pelo qual a diocese de São Paulo fora elevada a Arquidiocese, dela fazendo parte a Diocese de Curitiba, desanexada da província eclesiástica de São Sebastião do Rio de Janeiro e as cinco novas Dioceses de Taubaté, Campinas, Botucatu, São Carlos e Ribeirão Preto, fixando anexo à Arquidiocese como parte integrante do seu território o Santuário de Nossa Senhora Aparecida”.

1º Bispo: Dom João Batista Corrêa Nery

Eis como Dom Duarte Leopoldo e Silva, recém nomeado Bispo de São Paulo, em sua Carta Pastoral de 22 de outubro de 1908, festa da Maternidade de Maria, descreve os últimos preparativos e anuncia a boa nova: “Não calaram ainda de todo os ecos da pomposa recepção com que nos acolhestes, à nossa volta da Cidade Eterna. Mais do que afeto e filial demonstração de acatamento, significam essas festas que o Bispo soubera interpretar, junto do Santo Padre, as vossas mais legítimas e piedosas aspirações. Trata-se, com efeito, de dar corpo a uma idéia desde há muitos anos acariciada, tratava-se de constituir uma nova Província Eclesiástica onde um único Bispo mal podia sopesar a responsabilidade de tantos encargos; tratava-se de impulsionar esse valente movimento religioso que tem feito de São Paulo um baluarte de fé e de piedade; de multiplicar, enfim, os centros de atividade católica, com desdobrar em seis a vastíssima Diocese de São Paulo.

Não era fácil a empresa, por extraordinária e inaudita e, todavia, a necessidade se impunha, nem havia como lhe torcer o caminho.

Sem um momento de desânimo, que o não consentiria a robustez da nossa fé, pusemos mãos à obra, como quem levava a certeza de chegar ao cabo, ajudado da graça de Deus. E chegamos, para consolação Nossa e honra desta Diocese.

Ao assumir as rédeas de um governo tão melindroso, qual é o de uma Diocese, e de uma Diocese como São Paulo, não trouxemos programa que nos acreditasse diante dos homens. Para que? Tínhamos a certeza de encontrar a postos cada um dos nossos intimoratos auxiliares, encanecidos uns em bem travadas pelejas, apercebidos outros de valoroso entusiasmo arregimentados todos sob a disciplina da fé Tanto bastava.

Apenas chegado, compreendemos, de relance, a necessidade de dividir para governar, que êste é o lema dos fortes, e o não poderíamos recusar para escudo da nossa fraqueza.

Acolhidos com entusiasmo pela população em peso, das cinco cidades a que se destinavam as novas sedes episcopais, mais prontamente do que se pensava, vimos por toda parte triunfante a nossa causa, que é a causa de Deus e da sua Igreja.

Em Taubaté, Campinas, Botucatu, São Carlos, em Taubaté principalmente, foram logo reunidos os elementos materiais indispensáveis, que os espirituais os tínhamos de sobejo no sentimento religioso do povo paulista. Restava-nos plantar em Ribeirão Preto os fundamentos da nova construção. Rasgaram-se os alicerces, foram convocados os operários do bem, tomou-se posição para o trabalho, e todavia… a obra lá ficou em meio, paralisada, estacionária. Por que? Não nos importa saber. Tínhamos a promessa formal e soleníssima de uma população inteira, e tanto nos bastava para que, da nossa parte, cumpríssemos também o que havíamos prometido.

Os últimos retoques de uma obra tão bem começada reclamaram, por fim, a nossa presença em Roma, onde o Santo Padre nos acolheu com paternal benevolência, dispensando a tôda Diocese de São Paulo, favores e bênçãos inestimáveis. E aí, onde as coisas se fazem com a máxima ponderação e prudência, tudo se resolveu em pouco mais de dois mêses, ficando definitivamente assentada a constituição da nova Província Eclesiástica de São Paulo, segundo o plano proposto.

Este é o auspicioso acontecimento que ora vos anunciamos, transmitindo-vos o traslado do Decreto da Nunciatura, dando execução ao Decreto Consistorial de 7 de junho de 1908.

Dele vereis que a Diocese de São Paulo foi elevada à alta categoria de Arquidiocese, tendo por sufragânea a Diocese de Curitiba, desanexada da Província Eclesiástica de São Sebastião do Rio de Janeiro e as cinco novas Dioceses de Taubaté, Campinas, Botucatu, São Carlos e Ribeirão Preto, ficando anexo à Arquidiocese, como parte integrante do seu território, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida”.

Primeiro Meio de Comunicação

O periódico O Mensageiro, de 3 de novembro de 1912, traz um merecido louvor à Comissão e Sub-Comissões pró-Diocese: “Campineiros de nascimento ou de adaptação, todos crentes, fervorosos alguns, vimos a dedicação com que se entregaram à obra, em boa hora vencedora, e citá-los neste dia é um dever que a gratidão impõe. Foram eles o padre Francisco de Campos Barreto, depois Monsenhor e hoje ilustre bispo de Pelotas, notável filho de Campinas, a tantos títulos notável, ao tempo vigário de Santa Cruz; o padre Pedro Francisco dos Santos, hoje cônego e vigário de Amparo, então pároco da Conceição; Antônio Carlos do Amaral Lapa, decidido campineiro de distinta prole, cedo roubado pela morte ao carinho dos seus e à estima pública, não tendo podido ver a instalação do bispado; Orosimbo Maia, que o substituiu, trabalhador incansável na grande obra, ao menos por sentimento bairrista; Julio Franck de Arruda, digno católico de veneranda família; Dr. João de Assis Lopes Martins, campineiro de adaptação, crente sincero e ornamento das phalanges religiosas; Dr. Antônio Rodrigues de Mello, esforçado correligionário, que a moléstia na época impediu de assistir a vitória da ideia; Roque de Marco, generoso cidadão cuja vida de benemerência é assas conhecida; Antônio Benedito de Castro Mendes, honrado comerciante e correligionário condigno; Vicente da Fonseca Ferrão, ora falecido; Francisco Duarte de Rezende, Affonso Serra, Sabino Júlio de Barros e Domingos Barsotti”.

Aos poucos foi organizado o patrimônio exigido pela Santa Sé, obtido o prédio para a residência do Bispo e tudo o mais que se tornava necessário. Em pouco tempo tudo estava providenciado.

Criada a Diocese, só faltava a execução da Bula e sua instalação ou inauguração. A Bula do Santa Padre Pio X foi executada por Dom Alexandre Bavona, Núncio Apostólico, no dia 08 de setembro de 1908. A proclamação da execução desse Decreto e consequente inauguração da Diocese, por ordem do Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, foi feita no dia 18 de outubro de 1908, na Catedral, então Matriz de Nossa Senhora da Conceição, por Monsenhor Francisco de Campos Barreto. Com a posse do primeiro Bispo, Dom João Batista Corrêa Nery, no dia 1º de novembro de 1908, a Diocese de Campinas era uma realidade, de jure e de fato.

Texto do Profª. Drª. Lilia Inês Zanotti de Medrano
Publicado no livro Arquidiocese de Campinas: Subsídios para a sua História